Processo TO - 8 de Janeiro, 2026
#428 |Artigo| Envolvimento do Sistema Vestibular na Cognição: Capacidade Visuoespacial, Atenção, Funções Executivas e Memória
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Envolvimento do Sistema Vestibular na Cognição: Capacidade Visuoespacial, Atenção, Funções Executivas e Memória
- Citação:Bigelow, R. T., & Agrawal, Y. (2015). Vestibular involvement in cognition: Visuospatial ability, attention, executive function, and memory. Journal of Vestibular Research, 25, 73–89.
Resumo
- Evidências crescentes na literatura sugerem que o sistema vestibular, localizado no ouvido interno, influencia de forma significativa o funcionamento cognitivo. A evidência mais forte estabelece uma ligação entre a função vestibular e o domínio cognitivo da capacidade visuoespacial, que inclui a memória espacial, a navegação, a rotação mental e a representação mental do espaço tridimensional. Existe também evidência significativa que sugere que o sistema vestibular influencia a atenção e a capacidade de processamento cognitivo. Os domínios cognitivos da memória e das funções executivas são igualmente implicados em vários estudos. Neste contexto, o presente artigo procura compreender de que forma o sistema vestibular está envolvido em diferentes domínios da cognição humana, nomeadamente na capacidade visuoespacial, na atenção, nas funções executivas e na memória. Para tal, os autores realizam uma revisão crítica da literatura existente, integrando evidência proveniente de estudos realizados em humanos com disfunção vestibular, de investigações experimentais com manipulação do sistema vestibular e de estudos conduzidos em ambientes de microgravidade. Adicionalmente, o artigo discute possíveis mecanismos subjacentes às associações observadas entre a disfunção vestibular e o desempenho cognitivo, bem como identifica áreas que carecem de investigação futura.
Principais Resultados
- Os resultados apresentados neste artigo resultam da análise integrada de vários estudos que investigaram a relação entre o funcionamento do sistema vestibular e diferentes domínios da cognição. De forma consistente, os autores demonstram que o sistema vestibular não está apenas envolvido no equilíbrio e na estabilidade ocular, mas desempenha também um papel relevante no funcionamento cognitivo.
- – Capacidade visuoespacial
- A evidência mais sólida encontrada pelos autores diz respeito à capacidade visuoespacial. Pessoas com disfunção vestibular, sobretudo bilateral, apresentam dificuldades significativas em tarefas que envolvem memória espacial, navegação no espaço, rotação mental e representação mental do espaço tridimensional. Estes défices surgem mesmo quando as tarefas são realizadas em posição sentada e sem movimento da cabeça, o que indica que o problema não resulta da tontura ou do desequilíbrio durante a tarefa, mas sim de alterações nos processos cognitivos subjacentes à construção interna do espaço.Alguns estudos mostram ainda alterações estruturais cerebrais associadas a estes défices, nomeadamente redução do volume do hipocampo em pessoas com disfunção vestibular bilateral. O hipocampo é uma estrutura central para a memória espacial e para a navegação, o que reforça a ligação entre o sistema vestibular e os mecanismos neurais responsáveis pela organização do espaço.
- – Atenção e processamento cognitivo
- Outro resultado consistente é o impacto da disfunção vestibular na atenção. A manutenção do equilíbrio e da orientação espacial exige recursos cognitivos significativos, contrariando a ideia de que estes processos são totalmente automáticos ou reflexos. Estudos que utilizam paradigmas de dupla tarefa mostram que, quando as exigências posturais aumentam — por exemplo, em situações de instabilidade ou com privação de informação visual — o desempenho em tarefas cognitivas simultâneas diminui.Este efeito é mais marcado em pessoas com disfunção vestibular, que necessitam de mobilizar mais atenção para manter a postura e a orientação. Como consequência, ficam disponíveis menos recursos atencionais para outras tarefas cognitivas, como o processamento da informação, a tomada de decisões ou a execução de tarefas mentais rápidas.
- – Prioridade da orientação e da segurança postural
- Os resultados indicam que o sistema nervoso tende a priorizar a orientação espacial e a segurança postural em detrimento do desempenho cognitivo. Em situações de desafio, tanto indivíduos saudáveis como pessoas com disfunção vestibular mantêm relativamente estável o controlo postural, mas à custa de um pior desempenho em tarefas cognitivas. Este padrão sugere que a preservação da estabilidade corporal é considerada uma prioridade funcional, mesmo quando isso se associa a um desempenho inferior em tarefas cognitivas simultâneas.
- – Memória e funções executivas
- A relação entre o sistema vestibular, a memória e as funções executivas é menos consistente, mas vários estudos revistos apontam para associações relevantes. São descritas dificuldades na memória de curto prazo, na velocidade de processamento, no planeamento, na organização e na capacidade de alternar entre tarefas em pessoas com disfunção vestibular. No entanto, os autores sublinham que muitos destes estudos apresentam limitações metodológicas, como amostras reduzidas, ausência de grupos de controlo bem emparelhados ou instrumentos de avaliação pouco específicos.Por esse motivo, embora exista evidência sugestiva de envolvimento vestibular nestes domínios, os autores defendem que são necessários estudos mais rigorosos para clarificar a natureza e a magnitude destas associações.
- – Evidência proveniente de manipulação vestibular experimental
- Os estudos realizados em ambientes de microgravidade e com estimulação vestibular experimental demonstram que a alteração temporária da informação vestibular tem impacto no funcionamento cognitivo. Nestes contextos, observam-se sobretudo dificuldades ao nível da atenção e da capacidade visuoespacial, particularmente durante as fases iniciais de exposição, quando o sistema nervoso ainda não se adaptou às novas condições. À medida que ocorre compensação sensorial e reorganização, estas dificuldades tendem a diminuir. Este padrão temporal é semelhante ao observado em pessoas após uma lesão vestibular, nas quais os défices cognitivos são mais evidentes numa fase inicial e melhoram com o tempo.
Implicações para a prática
- Com base nos resultados apresentados no artigo, emergem várias implicações relevantes para a prática da Terapia Ocupacional:
- – Relação entre processamento vestibular e cognição
- A evidência de que o sistema vestibular está envolvido em domínios cognitivos como a atenção, a capacidade visuoespacial, a memória e as funções executivas sugere que dificuldades nestas áreas podem estar associadas a alterações no processamento vestibular. Dificuldades de participação em contextos escolares e lúdicos — como problemas de atenção em sala de aula, desorganização espacial, dificuldades na navegação do espaço, no planeamento de tarefas ou na coordenação de movimentos — podem refletir não apenas desafios cognitivos isolados, mas também exigências acrescidas associadas à orientação corporal e espacial.
- – Exigências atencionais do controlo postural e da orientação espacial
- O artigo evidencia que o controlo postural e a orientação espacial exigem recursos atencionais significativos. Isto pode traduzir-se numa menor disponibilidade de atenção para tarefas académicas ou sociais quando o corpo necessita de maior esforço para se manter orientado e estável. Estes dados reforçam a importância de uma avaliação holística, que considere a interação entre equilíbrio, orientação espacial, atenção e desempenho ocupacional.
- – Prioridade da segurança postural e impacto no desempenho funcional
- O reconhecimento de que a orientação espacial e a segurança postural exigem recursos atencionais significativos ajuda a compreender que, em determinadas crianças, parte da atenção pode estar constantemente alocada ao controlo do corpo no espaço, reduzindo a disponibilidade de recursos cognitivos para outras tarefas. Isto pode manifestar-se clinicamente sob a forma de maior fadiga, lentidão no processamento da informação ou dificuldades em realizar tarefas simultâneas.
Limitações:
- Os autores identificam várias limitações presentes na literatura revista:
- – Existe grande heterogeneidade metodológica entre os estudos, incluindo diferenças nas amostras, nos tipos de disfunção vestibular analisados e nos instrumentos utilizados para avaliar a cognição.– A maioria dos estudos apresenta amostras pequenas, o que limita a generalização dos resultados.– Há uma escassez de estudos longitudinais, dificultando a compreensão da evolução temporal das alterações cognitivas associadas à disfunção vestibular.– A elevada comorbilidade com perturbações emocionais (como ansiedade e depressão) pode influenciar o desempenho cognitivo, funcionando como fator de confusão.
- Para além das limitações referidas pelos autores, importa considerar que:
- – O artigo consiste numa revisão narrativa, e não numa revisão sistemática, o que pode introduzir viés na seleção e interpretação dos estudos incluídos.
- – A maioria da investigação revista incide sobre populações adultas, o que limita a extrapolação direta dos resultados para a população pediátrica.
- – Existe variabilidade significativa nos contextos experimentais (por exemplo, microgravidade, estimulação vestibular artificial), o que dificulta a aplicação direta dos resultados à prática clínica quotidiana.
Palavras-chave
- Sistema Vestibular; Cognição; Capacidade Visuoespacialr
Língua
- Inglês
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