Processo TO - 4 de Fevereiro, 2026
#433 |Artigo| Vias Vestibulares Envolvidas na Cognição
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Vias Vestibulares Envolvidas na Cognição
- Citação: Hitier, M., Besnard, S., & Smith, P. F. (2014). Vestibular pathways involved in cognition. Frontiers in Integrative Neuroscience, 8, Article 59. https://doi.org/10.3389/fnint.2014.00059
Resumo
- Descobertas recentes têm vindo a enfatizar o papel do sistema vestibular em processos cognitivos como a memória, a navegação espacial e a consciência corporal.
- Uma compreensão precisa das vias vestibulares envolvidas na cognição é essencial para compreender as consequências das alterações vestibulares no funcionamento cognitivo, bem como para desenvolver estratégias terapêuticas que facilitem a recuperação. O conhecimento das chamadas “áreas corticais de projeção vestibular”, definidas como as áreas corticais ativadas pela estimulação vestibular, aumentou de forma significativa nos últimos anos, tanto do ponto de vista anatómico como funcional. Quatro vias principais são propostas como responsáveis pela transmissão da informação vestibular para o córtex vestibular: (1) a via vestíbulo-tálamo-cortical, que provavelmente transmite informação espacial sobre o ambiente através dos córtex parietal, entorrinal e perirrinal para o hipocampo, estando associada à representação espacial e à distinção entre movimento próprio e movimento dos objetos; (2) a via que liga o núcleo tegmental dorsal ao núcleo mamilar lateral, ao núcleo anterodorsal do tálamo e ao córtex entorrinal, responsável pela transmissão de informação relacionada com a direção da cabeça; (3) a via que envolve o núcleo reticular pontino oral, o núcleo supramamilar e o septo medial até ao hipocampo, transmitindo informação que sustenta o ritmo theta hipocampal e a memória; e (4) uma via possível através do cerebelo e do núcleo ventrolateral do tálamo, possivelmente dirigida ao córtex parietal, associada à aprendizagem espacial.
- Finalmente, é proposta uma nova via através dos gânglios da base, potencialmente envolvida na aprendizagem e memória espaciais. A partir destas vias, emerge progressivamente uma rede anatómica responsável pela integração da informação vestibular na cognição.
- O objetivo deste artigo é rever e sintetizar a evidência anatómica e funcional existente sobre as vias vestibulares envolvidas na cognição, descrevendo as principais vias de projeção vestibular para o córtex e estruturas límbicas, e contribuindo para a compreensão do papel do sistema vestibular em processos cognitivos como a orientação espacial e a memória
Principais Resultados
- O artigo demonstra que o sistema vestibular está profundamente integrado nas redes cerebrais responsáveis pela cognição. Os resultados da revisão mostram que a informação vestibular não se limita a apoiar o equilíbrio e a estabilidade do olhar, mas é transmitida ao cérebro através de múltiplas vias anatómicas, influenciando diretamente a forma como o espaço é representado, como a memória espacial é construída e como o corpo é situado no ambiente.
- Um dos resultados centrais do artigo é a demonstração de que não existe uma única “via vestibular cognitiva”, mas sim um conjunto de vias paralelas e complementares. Estas vias ligam os órgãos vestibulares do ouvido interno a múltiplas estruturas cerebrais, incluindo o tronco cerebral, o tálamo, o córtex cerebral, o hipocampo, o cerebelo e os gânglios da base. Esta organização em rede permite que a informação vestibular contribua simultaneamente para diferentes processos cognitivos, como a orientação espacial, a memória, a navegação e a consciência corporal.
- Os autores descrevem várias áreas corticais de projeção vestibular, ou seja, regiões do córtex que são ativadas pela estimulação vestibular. Estas incluem o córtex vestíbulo-parieto-insular, áreas do córtex parietal, do córtex temporal medial, do córtex cingulado e do córtex retrosplenial. Estas áreas desempenham um papel essencial na integração da informação vestibular com sinais visuais e somatossensoriais, na construção de representações espaciais do corpo e do ambiente e na distinção entre movimento do próprio corpo e movimento de objetos externos. Este resultado ajuda a explicar porque a disfunção vestibular pode comprometer a orientação espacial mesmo na ausência de movimento físico.
- Outro resultado fundamental é a demonstração da dependência do hipocampo em relação à informação vestibular. O artigo apresenta evidência consistente de que o funcionamento normal do hipocampo — uma estrutura chave para a memória espacial e a navegação — depende da integridade do sistema vestibular. Os estudos revistos mostram que a perda vestibular altera a atividade das células que são fundamentais para a construção de mapas cognitivos espaciais. Em humanos, a disfunção vestibular bilateral está associada a redução do volume hipocampal e a défices na memória espacial, estabelecendo uma ligação direta entre o sistema vestibular e a memória espacial.
- Os autores destacam ainda o papel do ritmo theta hipocampal, uma oscilação neural essencial para processos de memória e navegação. A informação vestibular contribui para a modulação deste ritmo, sendo demonstrado que lesões vestibulares reduzem a sua potência e frequência. Esta alteração compromete a sincronização neuronal necessária à memória espacial, sugerindo que o impacto cognitivo da disfunção vestibular pode ser parcialmente explicado por este mecanismo neurofisiológico.
- Por fim, o artigo apresenta evidência de que o cerebelo e os gânglios da base participam nas redes vestibulares cognitivas. É proposta uma via vestibular envolvendo o cerebelo, associada à aprendizagem espacial, bem como uma via emergente através dos gânglios da base, potencialmente relacionada com estratégias de navegação e memória espacial. Este resultado amplia a compreensão tradicional da cognição espacial, demonstrando que estruturas classicamente associadas ao controlo motor também contribuem para funções cognitivas dependentes da informação vestibular.
Implicações para a prática
- – O sistema vestibular como base do funcionamento cognitivo: Os resultados do artigo reforçam a importância de compreender o sistema vestibular como um contributo central para a cognição, e não apenas para o equilíbrio e a estabilidade do olhar. Esta perspetiva apoia uma leitura integrada das dificuldades cognitivas e funcionais observadas em crianças.
- – Interação entre orientação espacial, cognição e desempenho ocupacional: A evidência de que a informação vestibular influencia a construção de representações espaciais e a navegação no ambiente sugere que as dificuldades de participação em contextos escolares, lúdicos e de vida diária podem estar associadas a exigências acrescidas na integração vestibular.
- – Os resultados reforçam a necessidade de uma avaliação que considere a interação entre orientação corporal, representação espacial, atenção, memória e desempenho ocupacional, em vez de analisar estas dimensões de forma isolada
- – A intervenção deve privilegiar a promoção da participação funcional da criança nos seus contextos naturais, considerando o impacto da integração vestibular na organização espacial e no desempenho das atividades diárias.
Limitações:
- Os autores do artigo identificam as seguintes limitações:
- – Algumas das vias vestibulares envolvidas na cognição permanecem hipotéticas, não estando ainda totalmente confirmadas do ponto de vista anatómico;
- – Uma parte substancial da evidência apresentada baseia-se em estudos com modelos animais, o que limita a extrapolação direta dos resultados para o funcionamento cognitivo humano;
- – A elevada integração do sistema vestibular com outros sistemas sensoriais dificulta a identificação do contributo específico da informação vestibular para funções cognitivas particulares.
Palavras-chave
- Sistema Vestibular; Neuroanatomia; Cognição; Hipocampo; Córtex Vestibular; Orientação Espacial; Gânglios da Base; Theta
Língua
- Inglês
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